Sua respiração entrecortada e difícil já era preocupação o
suficiente, mas só de pensar na perna machucada ele tinha vontade de chorar.
Chorar por sua vida, chorar pela vida de sua família. Joseph
sabia que, caso algo ruim lhe aconteça, sua mulher e filho não teriam mais
condições de se sustentar. Joseph sabia das conseqüências, mendigos eram
proibidos em St Remy.
Joseph nunca se preocupou muito com essas pessoas, nunca se
preocupou muito em saber o que acontecia com as famílias que tinham seu
provedor morto. Sabia que Lui D’Leon, o rei de St. Remy, não permitia mendigos
na cidade, mas o que exatamente aconteciam com essas pessoas? Exílio? Morte? Ou
algo pior?
O desespero de pensar no futuro de sua família deu a ele
fôlego extra. Levantou-se e olhou ao redor.
Joseph estava no meio de uma clareira na floresta. Ao seu
redor árvores, altos pinheiros e vegetação dura. A neve, que já caia desde o
início da manhã, agora decorava o chão da floresta como um espesso e felpudo
tapete branco. Seu filho costumava brincar na neve, alheio aos problemas que a
sociedade enfrentava, ele costumava dizer que gostaria de ter neve dentro de
casa, Joseph sempre achava graça disso. Uma lágrima escorreu gelada por sua
bochecha.
O ar frio entrava por suas narinas e trazia o odor estéril
da floresta. Cheiro de mato, cheiro de...cheiro de...sangue?
Joseph acordou de sua viagem com seu filho percebendo o
precioso tempo que perdera descansando, olhou par aos lados, com os olhos
marejados e soube que estava perdido. Não tinha a mínima idéia de onde estava.
Andou com dificuldade até sair da clareira e, novamente,
adentrar a floresta, que parecia se fechar a cada passo difícil que dava. Sua
perna sangrava muito, já não sabia quanto tempo conseguiria ficar em pé antes
de desmaiar, sentia o suor frio escorrendo pela testa, limpou-o com a manga
suja da camisa e ouviu atrás de si um barulho.
Um galho estalou.
Joseph olhou para trás e sue coração disparou. Não via nada. Uma
escuridão muito mais densa crescia pela floresta como uma represa de água negra
aberta.
Correu, esquecendo da dor na perna, esquecendo da asma,
esquecendo de tudo. Sua mente tentava ficar sóbria pensando na esposa e no filho, seu corpo não era mais
de um jovem, mas sabia que conseguiria chegar até os portões da cidade, caso
conseguisse achar o caminho.
Joseph nunca saía de dentro da cidade. Diziam que não era
seguro, contavam histórias sobre lobisomens, bruxas, vampiros, monstros e toda
a sorte de perigos que envolviam locais inóspitos e escuridão. Diziam que os
tementes à Deus estavam livres das mazelas das trevas, mas ele não tinha mais
tanta fé assim. Joseph questionava Deus há três meses, quando sua filha mais
velha, Madalene, foi levada por uma doença desconhecida.
Os padres e curandeiros de St Remy jamais viram algo
parecido. A pequena e bela Madalene tinha bulbos por toda a pele. Em sua
virilha e axilas cresciam bulbos tão grandes quanto laranjas.
Por que Deus tinha feito isso com ela? Madalene era
religiosa, meiga, inteligente e cheia de vida. Em uma semana ela simplesmente
definhou e morreu, como um cão sarnento, foi enterrada numa vala pública no
cemitério, junto com mais um monte de pobres coitados. Onde estaria Deus nesse
momento?!
Novo barulho e Joseph novamente saiu de seu transe. Diziam
que sua vida passa diante de seus olhos quando está a beira da morte. Seria
isso ?
Joseph saíra da cidade para encontrar um ramo de flores
específicas. Madalene gostava dessas flores, ela chamava de Flor de Lis, mas o
pai não entendia muito. Então, levou uma amostra da flor para um especialista
em Fontvielle que disse-lhe que a flor podia ser encontrada próxima aos muros
da cidade. Maldito vendedor de flores, Joseph começava a creditar a ele a culpa
disso estar acontecendo.
O pobre pai de família não sabia, mas sua hora estava muito
próxima. Arrependido ele começou a se sentir observado e seguido pouco depois
de sair da rota principal do portão sul. Teve que tomar esse desvio para poder
se manter rente aos muros da cidade, procurando pela flor . Sabia que Clara,
sua esposa, ficaria feliz com essa surpresa, ela ainda não havia superado, ou
melhor, ninguém superara ainda a morte repentina de sua anjinha, como
costumavam chamá-la.
Após pouco tempo de procura, achou as flores. Sorrindo de
sua sorte, recolheu as mudas e começou a caminhar de volta. Mas perdeu o
caminho.
Repentinamente a noite ficou mais escura, as sombras de
duplicaram e dançavam, como se tivessem vida própria. Joseph não sabia o que
era, mas o arrepio na sua espinha dizia que ele deveria correr.
O homem não teve tempo de fugir, como se algo tivesse lido
seus pensamentos, foi atacado na coxa. Dor, queimação, algo atravessara sua
perna. Nunca sentiu tanta dor. Uma flecha atravessara sua perna e seu sangue já
começava a jorrar como um encanamento furado.
Sua adrenalina e medo permitiram que ele não caísse no chão
e ainda conseguisse fugir. Quanto mais corria, mais a perna sangrava, mais
doía. O som de passos correndo atrás dele era menos perturbador do que a visão,
ou a falta dela. Joseph não via ninguém, podia escutar os passos de seu, ou
seus, perseguidores, mas não via ninguém. Apenas sombras dançando uma música
fúnebre que nunca tocou, como se estivessem rindo do seu desespero, rindo do
seu futuro.
Após alguns minutos que pareceram horas, Joseph parou e
escutou. Nada. Sem sombras, sem barulho, Joseph sorriu novamente na noite,
comemorando a sorte. Ao que parecia tinha despistado, o que quer que fosse.
Sentou e tentou tirar a flecha. Sem sucesso, a dor era mais
forte que sua força de vontade. Começava a se questionar quanto tempo ficaria
sem trabalhar, quanto tempo sua família passaria fome caso o ferimento fosse
muito grave, pensava nos favores que teria que prestar para conseguir comer
nesse tempo. Afastando esses pensamentos da cabeça, tentou levantar novamente,
mas a visão que teve o fez cair sentado novamente.
Joseph não podia acreditar, teve que olhar durante vários
segundos para assimilar a imagem que se postava à sua frente. Era um homem, mas
estranho, ele não tinha feições, como se fosse uma sombra, como se fosse não,
era uma sombra materializada. Impossível, algo que certamente deveria ter vindo
diretamente do inferno, Joseph se arrependera de ter duvidado de Deus.
A criatura, silenciosa como a noite, aproximou-se. O pobre
homem não conseguiu reagir, não tinha mais forças, o desespero deu lugar à
aceitação.
-Por favor, eu tenho família...me poupe...
O ser se aproximou mais e Joseph pôde ver, um pouco mais
atrás, entre as árvores uma pessoa. Uma pessoa vestida com um robe negro e uma
máscara que escondiam todo o corpo. Seria uma pessoa? Seria um monstro de
sombra vestido? Como que por extinto ele gritou:
-POR FAVOR, ME AJUDE!!!!
No primeiro momento, pareceu que sua súplica tinha
funcionado, a criatura recuou um passo enquanto a pessoa do manto preto se
aproximava lentamente. A cada passo do homem Joseph tinha mais certeza de que
sua vida estava chegando ao fim.
De repente o homem estacou e ficou olhando para o pobre pai
de família, sentado no chão, com uma poça de sangue junto de si. Ele chorava,
chorava porque sabia que jamais beijaria sua esposa, jamais diria ao filho que
monstros não existem, jamais beberia uma cerveja ou comeria carne de javali.
Joseph sabia que tudo o que ele era, tudo o que ele representava, todo seu
conhecimento e esforço para viver e criar uma família, teriam sido em vão.
O homem sacou uma faca que brilhava a luz da lua crescente.
Não conseguia ver seus olhos, mas teve a impressão que o assassino estava
sorrindo.
O homem, vestido com roupas negras falou pela primeira, e
última vez:
-Não se preocupe, sua vida não acabará em vão, você vai ter
a honra de ser sacrificado em nome do Abismo. Sorria e saiba que sua alma
alcançará a redenção, sua morte significa o surgimento de uma nova era.
Nada daquilo fazia sentido, Joseph nem assimilou direito o
que o homem lhe dissera. A adrenalina liberada pela certeza da morte fez com
que ele tomasse o último impulso de sobrevivência, ele decidiu lutar por sua
vida.
Com supreendente agilidade, o pai de família lançou-se para
cima do homem de manto com tal fúria que nem mesmo ele se reconheceu. Em vão.
Sua perna estava comprometida, seu corpo já não tinha mais
muito sangue para irrigar os músculos e ele caiu no chão. Impotente.
Joseph iria morrer, sabia disso, e sabia que sua família
sofreria destino pior.
A última coisa que viu foi o brilho da faca e escuridão.
Joseph morreu, não como um homem corajoso que vai à guerra defender alguma
causa, mas como um pai de família impotente pela criminalidade, morreu como um
animal, sacrificado por alguma espécie de bem maior.
Viveu como um camponês, morreu como uma ovelha. Nada mais
trágico para um pai de família, nada mais trágico para a família.
Agora, nada mais importava, enquanto sentia sua vida deixar
seu corpo, a única coisa que pôde fazer foi balbuciar o último pedido de
desculpas para a família.
Que triste cara... funesto rs
ResponderExcluirComo vampire deve ser.
ResponderExcluir